Pires na mão e bico calado

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A institucionalização de nova modalidade transacional entre as partes

Pires na mão e bico calado

A maioria dos prefeitos de agora perderam a liberdade de, ao menos, em alguns momentos se posicionarem contrários ao poder de mando vindos lá do Palácio dos Bandeirantes, emanado por Geraldo Alckmin e do Palácio do Planalto, emanado pelo ilegítimo e golpista Michel Temer. Existia até bem pouco tempo, algo natural dentro da política, o fato de um prefeito ser de um partido político e o governador de outro, sem que isso causasse problemas além da divergência partidária e ideológica. Mesmo com rusgas, a coisa pública prevalecia sobre as demais. Foi-se o tempo.


Vigora hoje nas hostes paulistas, ampliada com o advento da chegada do (des)Governo de Temer a institucionalização de nova modalidade transacional entre as partes. Para um prefeito conseguir algo, necessita ir de pires na mão, tanto para São Paulo, como para Brasília, meso sendo da mesma linhagem política e partidária. A condição hoje é somente uma, implorar para conseguir algo e mesmo diante de urgência urgentíssima, nunca ousar demonstrar algo contrário do prescrito na cartilha do mandatário superior.


Gazzetta, o prefeito bauruense esteve essa semana em Brasília e deve ter sentido na pele o que isso tem de mais cruel. Não existe mais cordialidade nas relações, elas além de embrutecidas, são muito práticas, a cara dos novos tempos. “Ou você me apoia, ou nem lhe atendo, ou se lhe atender, mera questão protocolar. Tire seu cavalinho da chuva se espera receber algum tipo de ajuda para necessidade de seu rincão se ousar discordar ou agir diferente do que lhe imponho”, eis a regra primeira.


Veja como se dá as relações de Temer com os governadores. Para conseguir uma grana extra, mesmo as mais que básicas, se faz necessário entregar de bandeja lucrativas empresas estatais para a privatização. Sem ela, nem conversa existe. Na bacia das almas, Rio de Janeiro e Rio Grande do Sul já entregaram a alma ao diabo, no caso, aos vis interesses dos atuais integrantes planaltinos.


Não pensem diferir o modus operandis de Geraldo Alckmin. A negociação se dá nesse nível. Você aceita fechar uma escola, assumir seu passivo e daí penso no que posso fazer. Quanto tempo mais, por exemplo, nosso DAE resistirá? Cito caso bem recente ocorrido em Bauru. A falta de medicamentos nos postos de saúde da cidade está pela hora da morte e o menos culpado por isso é o município. Os programas são estaduais e federal, porém, os prefeitos preferem engolir em seco, assumem para si culpa e tocam o barco com o que tem, pois se reclamarem e explicitarem a culpa a quem de direito, correm o imenso risco de perder o pouco ainda recebido e daí sim, o caldo entornará. Nem dialogar podem mais, quanto mais denunciar.


Não existe mais periodicidade para nada, certeza então, nem pensar. Cortes são rotineiros e que se virem, levantando as mãos para o céu pelo ainda recebido. Contam com o acaso e com o quesito da boa vontade. Os tempos são outros e isso é só a ponta do iceberg do estado de exceção adentrando as quatro linhas do campo e jogando cada vez mais um bolão. Hip hip hurra, não era isso que queriam? Não queriam mudança? Ei-la, sem tirar nem por.


Henrique Perazzi de Aquino – jornalista e professor de História (www.mafuadohpa.blogspot.com).

 

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