Henricão, o engenheiro que não se conformou em virar suco

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HENRICÃO SE FOI: A SAÍDA É SE EMBRENHAR NAS QUEBRADAS DO PAÍS – DESORIENTADO...

Henricão, o engenheiro que não se conformou em virar suco

Henricão, o engenheiro que não se conformou em virar suco (vide o título do filme, “O Homem que virou Suco”) descobriu tempos atrás que o grande negócio era escapulir país adentro e cair nas entranhas do que ainda resta de saudável neste país. Fechou seu bar, o “Coisas da Roça”, que tanta gente aglutinava e mineiramente foi mais pra dentro do mundo. Henricão descobriu a falência das cidades médias e grandes e nelas não quis mais viver.

Henricão, o engenheiro que não se conformou em virar suco

Fugiu pra mais longe, pra um lugar onde pudesse de fato, estar com um pé no mato e outro na civilização, uma pequena cidade, Pirajuí, enfim, todos precisam continuar sobrevivendo e ganhando alguns caraminguás para sobreviver. Ele foi sobreviver nas beiradas do Mato Dentro. Hoje, um golpe foi enfiado goela abaixo deste país e muita gente quer fazer o mesmo, mas a maioria continua onde está por falta de oportunidades, de lugar para onde ir, daí continuamos nesse mundão de fazer doido. Os que puderam e souberam se safar já se foram há muito tempo. Henricão um deles. Escapuliu dessa inquietude de viver entre uma dita gente que se diz normal, mas estão todos doentes, dos pés à cabeça. Vivia assinando pequenos projetos, rindo muito e sem grandes envolvimentos políticos. Cansou. Morreu sem sofrer, rápido, tipo vapt-vupt. Vejam o que amigos (as) disseram dessa macanudo, baita sujeito, desses que deixa saudade e me faz pensar sobre dos motivos de ainda querer continuar morando numa média cidade e não me enfurno pro meio desse mundão:


"Luly Zonta está se sentindo muito, muito triste. Conheci nos tempos da faculdade em Bauru um mineiro gente boa de Juiz de Fora, chamado Henrique José Hargreaves Carvalho... Ele era o engenheiro de hidrelétrica, que virou dono de bar, aquele simples recanto com cachaça, prosa e comida mineira boa e em quantidades fartas. O Coisas da Roça fez história! E quantas histórias temos para contar da gente e do bar?! O Henrique era parte da nossa família e inda agora chega a notícia de que o coração do "cumpadi" parou de bater, lá no sítio em Pirajuí... o pranto tá solto e o coração tá apertado demais.", jornalista Luly Zonta.


Última prosa com o Mineiro - Caro Henrique: Mesmo distante e tantos anos sem te ver, posso ouvir com uma nostálgica perfeição, que hoje tá doendo pra caralho, o “r” do “Marcinho” que você carinhosamente e mineiramente me atribuía nas deliciosas noitadas do “Coisas da Roça”, ali na Araújo Leite, primeiro lá embaixo e depois mais pra cima, quase em frente à Telesp! Sim, havia a Telesp! E o Diário de Bauru, na Antonio Alves, a uma quadra do bar, restaurante, nossa casa por algumas horas, claro que você se lembra, que bobo eu sou, ficar aqui explicando uma coisa dessas logo a quem! A gente saía do jornal e ia pra lá. Tomava uma no balcão contigo antes de ir pra mesa. Mais tarde, era o inverso: você é que ia pra nossa mesa. Sabe o que é mais engraçado? Que quase todo dia a gente estava no seu bar depois do trabalho. Aí, aos sábados, o pessoal marcava de sair. Um ligava pro outro de suas casas. E adivinha pra onde íamos? Hehehe... Verdade, coisas de loucos. Você certamente também se lembra de como éramos tão jovens naquelas noites! E ficávamos ainda mais vigorosos ali, discutindo política, futebol, jornalismo e outras bobagens da vida. No fundo, o legal era “conversar sobre isso e aquilo” (Adoniran) sem medo de ser feliz, porque a gente ainda acreditava pra valer, né? Acreditava pelos poros, por assim dizer. Mas em quê? Pois é, aí é que está, meu velho. Em Coisas. Coisas de futuro. Coisas de jornal. Coisas de bar. Coisas de amor. Coisas de jovens. Coisas da Roça. Por que você acha que a certa altura da noite, depois de ir e vir muitas vezes entre o balcão e a nossa mesa, você se levantava decidido e fechava a porta, e a prosa continuava a toda? Por isso mesmo! Porque, sem acreditar, ninguém fecha a porta por dentro para se guardar com os amigos. Até que não tinha mais jeito e era preciso tirar o talão de cheques do bolso. Sim, a gente ainda usava cheques! Coisas do passado. Se algum ficou sem fundos, perdoa, tá? Palco de risos e lágrimas. Sim, a gente também chorava ali naquelas mesas. Coisas que a amizade engendra por baixo da toalha. Henrique, seu bar prova a tese (alguém já deve ter escrito sobre isso) de que são os lugares que passam pela gente, e não o inverso. São os lugares que ficam na gente, e não o inverso. Quem viveu “Coisas da Roça” vai carregar as cadeiras, as mesas, os copos e também toda a estrutura física que nos protegia da chuva, do vento e do frio. Vamos carregar pra sempre. Não importa quantos outros bares tenhamos que carregar, vamos carregar o “Coisas” com você dentro, entende? É isso aí, Mineiro. Boa viagem pra ti. Por aqui, a prosa ficou mais curta. E a roça, mais triste. Coisas da vida, meu caro. Novamente com a licença do Adoniran, “Coisas que nóis não entende nada”, jornalista Márcio Abecê.

“Proprietário de um dos bares mais tradicionais de Bauru na década de 1990, o Coisas da Roça, Henrique José Hargreaves Carvalho, 64 anos, foi encontrado morto em casa, na manhã desta terça-feira (8), em Pirajuí. Engenheiro por formação, ele era presidente da Associação Pirajuiense dos Arquitetos, Agrônomos, Engenheiros, Técnicos e Tecnólogos e prestava serviços para o Serviço Autônomo de Água e Esgoto (Saae) da cidade. Segundo amigos, Henrique sofreu um infarto, mas não foi possível precisar o horário de sua morte. A última postagem dele em uma rede social foi feita às 23h de domingo e, devido à falta de notícias durante toda a segunda-feira, amigos foram até sua residência e o encontraram em um cômodo que funcionava como escritório, já sem vida, por volta das 10h30 de desta terça-feira. Mineiro de Juiz de Fora, Henrique é descrito pelos amigos como um homem que gostava das coisas simples da vida e da tranquilidade trazida pelas cidades do Interior. Em Bauru, manteve o Coisas da Roça nas ruas Antônio Alves e Araújo Leite. O bar ficou conhecido pelo ambiente descontraído, pelo cardápio mineiro, pela música boa e pelas famosas cachaças.

Há mais de uma década, Henrique havia se mudado para Pirajuí, onde voltou a trabalhar como engenheiro. Ele deixa três filhas. O corpo será velado e sepultado em Juiz de Fora, cidade onde sua família reside”, texto do Jornal da Cidade – Bauru, 08/08/2017.

Henrique Perazzi de Aquino, jornalista e professor de História (www.mafuadohpa.blogspot.com).

 

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