Conversando comigo mesmo – Considerações e achamentos

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Hoje (21) é sábado, rola aqui na vitrolinha um Miles Davis e logo mais a noite terei o inenarrável prazer de assistir mais um show da cantante e encantante Cida Moreira, no SESC Bauru.

Conversando comigo mesmo – Considerações e achamentos

Hoje (21) é sábado, rola aqui na vitrolinha um Miles Davis e logo mais a noite terei o inenarrável prazer de assistir mais um show da cantante e encantante Cida Moreira, no SESC Bauru.

A vida rola, não tão solta como dantes, pois estamos vivendo, mesmo os canarinhos desdizendo do assunto, tempos sombrios, perversos, cruéis e de evidente retrocesso. Temo pelo meu filho, 24 anos e querendo cursar mais algo pra ver se chega em algum lugar.

Eu mesmo, do alto dos meus 57 anos (rodo mais um ano em junho) não quero chegar em mais nada a não ser fazer o que estiver ao me alcance para reverter essa bosta onde esses malditos golpistas nos enfiaram.

Que mais posso querer? Ainda ouço a música que gosto, isolado aqui neste bunker mafuento, beirada do rio pestento denominado Bauru, vivo no meio de papéis, livros e memória. E como ela dói. 

Conversando comigo mesmo – Considerações e achamentos

Ontem a noite mais uma das certezas destes tempos. Fui tentar ser agradável com um bestial, desses cegamente endossando tudo o ocorre, contente da vida com as transformações para pior. Ele na casa dos 65 anos, nos cruzamos no caixa de um bar e lhe disse querendo ser agradável, pois mesmo na baita adversidade da linha de pensamento e ação, havia até então um respeito: “Quem lhe mandou um recado e disse queria muito conversar contigo foi o ______”. E lhe declinei o nome. Sua fisionomia se transformou: “Mande aquele comunista pra PQP. Não quero mais papo com gente assim”. Fechou questão. Deu para entender? Acabou visceralmente a cordialidade até então existente.

Essa trégua de décadas permitindo um diálogo entre os de opiniões divergentes, hoje já não é mais possível. Os tais de verde-amarelo nas ruas fecharam questão e as portas. Se antes, ainda conversavam, hoje não mais. Hoje já são muito agressivos, amanhã sei lá o que farão conosco se nada fizermos já para dar um breque na bestialidade ululante. 

Quer outro exemplo da profunda desilusão com o ser humano, esses mesmo aqui já citados, os canarinhos. Li isso ontem num comentário nas redes sociais. O sujeito postou algo mentiroso contra o ex-presidente Lula e foi chamado a atenção: “O que você está espalhando é mentira e sei que sabes disso. Te conheço, seu grau de instrução, seus conhecimentos, me diga, como pode espalhar mentira nesse momento de tanta incerteza?”. Sua resposta, de forma curta e grossa é o exemplo de como caminham as coisas: “Eu sei que o que reproduzi é mentira, mas isso faz parte do jogo”. Entenderam? Faz parte do jogo mentir descaradamente, tudo para atingir mais rapidamente objetivo dos mais sórdidos.

Minha conclusão: Não existe mais ética, verdade, sensatez e muito menos amor ao próximo, dignidade e possibilidade de entendimento entre as partes.

Eu reajo, ainda me permitem escrever. Alguns sinais me tocam profundamente. Num sinal ontem um jovem nipônico me vendo estacionar o carro, pede se pode fotografar o adesivo no vidro do meu carro (Lá está: "Yes, nós somos bananas - Fora Golpistas"). Permito e ele sorri: “Queria ter a tua coragem e colocar um desses aqui no meu estabelecimento, mas...”. No bar noturno, uma senhora se aproxima: “É o sr Aquino?”. Na afirmativa me enche de orgulho: “Sou mãe de um grande amigo do seu filho. Leio o que escreve e acompanhei o desenvolvimento intelectual do seu filho, hoje um ser pensante, liberto, livre, cabeça consolidada. Sei que isso tem a sua cara”. E me disse mais, naqueles momentos em que você se vê sem chão, orgulhoso de si mesmo, todo pimpão. Mas de que vale isto diante deste doentio momento do país? Vale que, talvez, por ter dado a educação adequada ao filho o tenha exposto demais, pois pensando e não agindo como manada, vai dizer o que pensa e isso sempre causa problemas, ainda mais diante de um regime de exceção como as amostras sugerem estarmos adentrando. 

O CD do Miles Davis termina na vitrolinha, o cão Charles deitado ao meu lado de barriga para cima se alvoroça quando levanto para mudar a música. Volto no tempo e saco um do selo Revivendo, “Mário Lago – 90 Anos”. Se soubessem ter sido ele a vida toda comunista, muitos não mais vão querer ouvir mais nada de sua lavra.

Cá estou neste feriado de Tiradentes na capital da Terra Branca, reduto hoje de coxinhas múltiplos e variados, aumentando o som e indo lavar meu cão neste sol que se alevanta lá fora.

Em Bauru, além do Sarau do Viaduto e do show da Cida Moreira, nada mais a movimentar a modorrenta vida. Ah, como queria estar lá no Acampamento de Curitiba em solidariedade ao ex-presidente Lula e vivenciar ao vivo e a cores algo dessa resistência ainda possível.

Sendo lá que as coisas hoje acontecem, em pensamento me transporto para lá enquanto o Lago canta uma velha música do Francisco Alves, “Fracasso”. Que feriado de bosta esse!

Henrique Perazzi de Aquino, jornalista e professor de História (www.mafuadohpa.blogspot.com).

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