A resistência e a queda de movimento da maior banca de livros e revistas de rodovia paulista.

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A queda de movimento da maior banca de livros e revistas é preocupante! Texto inspirado em alguns economistas bauruenses a repetir que a Economia se recupera e que tudo está se reencaminhando.

A resistência e a queda de movimento da maior banca de livros e revistas de rodovia paulista.

Logo no início da rodovia Castelo Branco, altura do km 29, para quem sai da capital paulista e segue no sentido interior, depois da passagem por Osasco, Barueri e Alphaville, uma parada quase obrigatória para admiradores da boa leitura, a Banca Book Castelo. Durante quase duas décadas, Gilson Carvalho Araújo viu nascer e vicejar ali um negócio alvissareiro, de grande movimento. "É a primeira e única grande banca de revistas e livros da rodovia, na boca de entrada da Castelo e vivia cheia, gente interessada, desde revistas, livros de arte, arquitetura, decoração e quase todos os jornais. Eu sempre fui atrás de ter tudo e muitos chamavam meu estabelecimento de Boutique de Cultura, o que me enchia de orgulho”, conta num desabafo pessoal contrastando com a situação atual.

 

A resistência e a queda de movimento da maior banca de livros e revistas de rodovia paulista.

A banca continua a mesma, lotada de publicações de tudo quanto é espécie, atende todos os segmentos, mas a clientela rareia e ele já coça a cabeça. Quando questionado sobre o futuro, responde de forma monossilábica: “preocupante”. São 16 anos de portas abertas (abriu em 03/04/2001), de segunda a segunda, sempre das 6 às 22h e ele, saindo lá de Pirituba, quase 30 km, ida e volta, sem ter fechado um só dia nesses anos todos. Quem fechou foram seus vizinhos. Uma loja de sapatos resistiu até quando deu e, por fim, acuados pela falta de movimento mudaram-se definitivamente para Osasco.

A farmácia do lado já mudou três vezes os proprietários no período e na sua frente, do outro lado de um amplo estacionamento, uma loja de móveis antigos segue na mesma trilha que o seu negócio, aberta, porém "preocupados".

A parada do km 29 é conhecida como Posto do Gugu, uma conveniência da rede Grall e na lateral, na recepção de quem adentra o lugar, o posto de combustível e algumas lojas. A do Gilson é o mais famoso cartão de visitas do lugar. Ele sabe como ninguém o quanto está difícil continuar no ramo de negócio de revistas e livros e conta algo de algum dos seus vizinhos mais famosos. “Aqui perto, em Alphaville, tinham duas imensas bancas, chics no último, encravadas no coração de um dos condomínios mais abastados da Grande São Paulo e ambas fecharam as portas. Seus donos mudaram de ramo, pois o de banca não rendia mais nem para se manterem”, conta, resumindo o problema atual das bancas.

Ele insiste, rememora o passado e enxerga poucas esperanças de dias melhores. “O país já não lê como antes. Percebo isso pelas pessoas que antes paravam aqui e levavam muita coisa e hoje, quando param levam quase nada. O movimento caiu pra muito mais da metade. Tinha clientes de todo o interior paulista, pessoas que religiosamente paravam aqui e hoje nem os vejo mais. Não param nem para o cumprimento. Preocupante”, repete a palavra mais ouvida por ali.

 

A resistência e a queda de movimento da maior banca de livros e revistas de rodovia paulista.

 

Até bem pouco tempo tinha jornais de vários estados e nenhum encalhava. Hoje, está limitado aos jornais estaduais e com um grande encalhe. O seu negócio continua de portas abertas e dando emprego para quatro pessoas, além dele e do filho, que aos finais de semana, principalmente aos domingos é quem cobre a folga dos demais funcionários. “É que criei uma banca diferenciada, dessas com tudo e isso tem um custo. Impossível tocar algo com tanta coisa e sozinho. Tenho que contar com ajuda, só que as coisas não estão mais como antes. O ponto nevrálgico é essa percepção do aumento da crise, essa sentida por todos, mas junto a isso outra, a da leitura. A população cresceu, mas as pessoas leem menos que antes. Tudo bem que a internet tem lá sua culpa e a crise do papel acomete a todos envolvidos nesse negócio, mas até nas conversas a gente percebe, os assuntos bons rarearam e a maioria parece não se interessar mais por ler. Eu não desanimo, mas fico preocupado”, conclui.

Durante meia hora permaneci ao seu lado numa manhã de domingo e ele me diz que, antes vinham pessoas de toda região buscar publicações, principalmente nesse dia, o da folga familiar. Poucas adentraram o conhecido ponto naquele domingo e ele sabe, não é por falta de publicidade, pois quem circula pela rodovia o conhece. Quem gosta de ler e roda pela rodovia o conhece de cor e salteado. O motivo é bem outro, fazendo com que Gilson, uma pessoa alegre, comunicativa, dessas que no primeiro contato se percebe gostar demais do que faz, mas impossível não notar o ar de “preocupação” em seu semblante.

Sua vida é o seu pequeno negócio, aquele amontado de letrinhas gravadas e espalhadas pelas mais diversas publicações ali expostas, lugar onde passa a maior parte do tempo, muito mais que em sua casa e ao lado da família. O que lhe encabula já não é motivo somente das suas preocupações e para me provar aponta a manchete de uma revista ali na prateleira. Lá está estampada, como a perseguí-lo, no meio de uma manchete, a mesma palavra que ele tanto me repetiu: “preocupante”. Economistas rentistas apregoam que a situação do país está melhorando, isso porque não estão circulando pelas beiradas do país, lugares como a banca do Gilson, um dos resistentes destes bicudos tempos, lugar onde até a leitura tem rareado.

*Henrique Perazzi de Aquino, jornalista e professor de História em Bauru, SP (www.mafuadohpa.blogspot.com).

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