A minha, a tua renúncia

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A renúncia no regime parlamentarista é um ato corriqueiro e que culmina com um novo governo. Não há crise, não há arroubos, nem ameaças. Já no presidencialismo...

A minha, a tua renúncia

O presidente proclamou que que não renunciaria. Fez um pronunciamento e foi para casa. O vice presidente ficou alerta para ter que assumir o governo a qualquer momento. Nada. O homem estava decidido como um verdadeiro militar.

Foi então que a marinha mergulhou na crise política que abalava a jovem república. Os navios de guerra foram alinhados na baia da Guanabara e abriram fogo contra a casa do marechal Deodoro. Um dos canhonaços atingiu a igreja da Candelária. Blasfêmia  dizia o povo. O velho marechal não resistiu e pegou o boné. Entregou o poder para o vice, o também militar Floriano Peixoto. O Congresso esperava que ele cumprisse o que dizia a constituição da República dos Estados Unidos do Brasil, ou seja, se o presidente fosse apeado do cargo antes de completar metade do mandato de 4 anos, o vice teria que marcar eleições imediatamente para completar o período. Era o que se esperava. Contudo Floriano, apoiado por parte do exército, avisou que ficaria até o final do mandato. Como a chapa era a primeira da república o dispositivo constitucional não se aplicava a  ela dizia o marechal de Ferro. E a crise se arrastou por mais três anos com muitas mortes. O governo Deodoro só durou oito meses.

O governo dele durou só sete meses. Não foi necessário força-lo a renunciar. Ele renunciou de livre e espontânea vontade surpreendendo o Brasil. Largar o posto mais alto da república só pode ser um gesto tresloucado ou de grande idealismo. Jânio Quadros.

O que  queria ele? Abandonar um pais sob um terremoto econômico provocado pelos gastos com a nova capital, ou voltar nos braços do povo como um verdadeiro líder do terceiro mundo? Era assim que se chamavam alguns países que nem apoiavam os Estados Unidos, nem a União Soviética. Jânio tinha dado mostras que queria ser uma espécie de Nasser, o egípcio, ou Tito, o iugoslavo. Um líder ditatorial como tantos outros no mundo sob o pretexto de conduzi-lo ao desenvolvimento. Assim como outros tiranetes mandou até confeccionar um safari com o qual se apresentava magestaticamente. Até a faixa presidencial levou em sua fuga para São Paulo, caso voltasse para Brasília como chefe de todos os poderes. Foi um ato de vontade, unilateral, como todo ato de renúncia.

A minha renúncia enche-me a alma e o coração de tédio. A tua denúncia dá-me um desgosto que não tem remédio. Estes versos foram cantados pelo grande Nelson Gonçalves, são de autoria de Mário Rossi. A cada crise brasileira repete-se o jargão de Deodoro : Não renuncio, me derrubem.!!!! Nenhum motivo é suficientemente grave para que o presidente renuncie, nem mesmo o fim de um era. Getúlio Vargas tentou se eternizar no poder em 1945, depois da anos de ditadura, com o apoio do seu maior inimigo, o Partido Comunista Brasileiro. Não resistiu a derrota do eixo e foi obrigado a renunciar com os tanques de guerra cercando o Palácio do Catete, no Rio de Janeiro. Fernando Collor, quando percebeu que não tinha nem apoio popular, nem base de sustentação no Congresso, fez um apelo; Não me deixem só.!!!! Renunciou antes de ser cassado e deixou o palácio da Alvorada no helicóptero presidencial a caminho da casa da Dinda. Imitou o gesto de Nixon, ainda que por motivos diferentes.

A renúncia no regime parlamentarista é um ato corriqueiro e que culmina com um novo governo. Não há crise, não há arroubos, nem ameaças. Já no presidencialismo...

* na foto - cantor Nelson Gonçalves

Heródoto Barbeiro é jornalista, âncora do Jornal da Record News e do R7, diariamente às 21h. Também diariamente, às 20h10, apresenta ao vivo no R7 o musical Talentos. Ex-apresentador do Roda Vida da TV Cultura e do Jornal da CBN. Autor do Manual de Jornalismo (Elsevier), Provocações Corporativas (Altabooks), Midia Training (Saraiva), Budismo (BellaLetra) e Buda(Madras).

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